domingo, 18 de outubro de 2009

Tanto mais que você não será


quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Motivos

Talvez por essa sua leve descendência francesa, eu sempre tive muito interesse pela França. Talvez o jeito suave da fala, os gestos com lentidão e precisão. Ou será o olhar baixo, profundo? Ou então o breve ato de pensar. Sempre, segue-se uma breve reflexão, então, as palavras saltam, lentas, pronunciadas com uma voz suave e em tom baixo. Pode ser o dom das cifras, as janelas abertas... Ou o andar, levemente arrastado porém quase mecânico, com um molejo nos passos, uma quebrada de segmentos. O enlace, pode ser também o enlace, demorado, com entregas e pulsações.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Sobre os finais

Procura desesperadamente em seus escritos, nos resquícios da vida moderna on line, algo que corresponda aos instantes que passaram juntos. Breves e intensos, em sua fase mais conturbada de fixação da nova personalidade, tenta manter a frieza que a maturidade pede.

Nos encontros, somente frases e letras soltas, que não comunicam. O silêncio a incomoda. Bons conflitos rendem, e rende-se. Sabe que amores, amigos, lembranças e silhuetas tomam o novo mundo do moço bom de olhar... Perderia horas só observando.

Vai ao encontro do homem responsável pelo despertar das mais adversas sensações e vontades. Que fez ela desviar-se em deslizes contínuos. Ao seu lado não tem receio do deguste compulsivo. No prédio sem porteiro, encontra com um casal saindo, lânguidos, exageradamente apaixonados. Adentra o prédio sem dificuldade, aproveita a deixa da saída. Encontra o apartamento com a porta encostada, dá passos sorrateiros.

Olhos arregalados, sussura:
- Desejo-lhe uma boa vida, com confusões e perturbações, só assim faz sentido.

Terá sempre as imagens e diálogos raros bem guardados, imagina o futuro feliz revendo o passado denso de trepadas, maconha, vinho e silêncios.

Mais baixo que da primeira vez, sua voz quase não sai no murmúrio rouco:
- Não aprecio a falta de ruídos! Silêncio perturbador, escuto as lástimas dos demônios que me habitam.

Sentada sobre o corpo já frio do amante, lembra-se do marido e dos filhos que a esperam para completar a rotina. Jantar, conversas, louças, talvez um sexo sem muita graça, sono, sonhos. Levanta-se abruptamente arremessa o canivete em um canto qualquer do apartamento, limpa-se e deixa o prédio, apressada.

Recém completados 37 anos. Teve o destino programado.
Levemente religiosa, Julia passou por todas as etapas necessárias. Batismo, primeira comunhão, crisma, estudos, faculdade, casamento, filhos, crises.

Imaginava a vida exatamente assim, aos 24 anos, quando saiu da igreja desconfortável dentro do imenso vestido branco de noiva. Sabia dos riscos e perdas, teve bons exemplos com os pais e parentes, mas aceitava o que era correto, e ia em busca de seu final congelado.

18h00, encerra-se o expediente, repete os movimentos rotineiros. Desligar o computador, limpar a mesa, pegar casacos, bolsa e chaves, elevador, estacionamento, carro.
Senta-se, deposita toda a "bagagem" no banco traseiro, fecha a porta e encara as chaves. Chora desesperadamente. Revê a vida sem embasamento, as lágrimas jorram em suas mãos, arranha a face, a cena repete-se e repete-se.
Ainda sem conter as lágrimas e quase sem fôlego, sai do carro, deixando-o escancarado...

Sai apressada do prédio a passos largos, esbarra no segurança do estacionamento e grita histericamente, corre até a calçada batendo nos passantes, aos berros e lágrimas, arranhando agora continuamente, além das faces, o colo, o corpo. Rompe o movimento e inicia uma série com os braços a balançar no alto, como um pastor em seu mais enérgico sermão, sempre aos berros, finalmente encontra nas sombras da loucura, seu final feliz.

Augusto aprecia o silêncio, o que sempre acaba soando como perturbador, raros os que conseguem a naturalidade na ausência de sons, geralmente embarcam em monólogos enquanto ele se perde em pensamentos hostis. Mas hoje não aprecia a solidão.

Acende um cigarro e apanha o casaco que repousa sobre a cadeira, o único assento da casa simples de seu avô. Caminha apressado como se atrasado, dá-se conta de que não tem um destino certo, que caminha para lugar nenhum, reflexões.

Sempre haverá algo a ser seguido, e sempre estará perdido, com o ar de "enquadrado", em meio a multidão falante... Tentando ter relacionamentos e relações, falidos.
Mecanicamente chega até seu prédio, apenas encosta a porta do apartamento, não costuma receber visitas.
Come algo e adormece pesadamente.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Lembranças para uma amizade perdida

Experimenta o café sem doces, comparando com o amargo do novo ciclo.
Recém feita a descoberta de que definitivamente as mudanças corroem.
Escuta as conversas das mesas ao redor, já não tenta ser aceito.
Os últimos amigos que restam, estão distantes. Os que ficaram incluem-se agora em outro grupo de amigos.

Vidas feitas com aceitações, aprende a escutar críticas, que agora soam como destrutivas, absorve o necessário.

Abre portas e janelas.
- Solidão, poeira leve...

Repete a frase que leu a pouco. Esquece das regras sobre não falar sozinho em lugares públicos, aceita também os olhares de estranhamento.

- A porta aberta, sinta-se...
(É interrompido).

Com um ar de grande alegria, o desconhecido conhecido o cumprimenta...
- Olá! Tudo bem? Como vai? Tomando um café?

Desanimado, quase não se ouve a réplica.
- Pois é, as vezes é preciso...
Fixa o olhar na xícara, nesse momento imagina-se a nadar no café.

Passado o incômodo do encontro desnecessário. Aprecia sua própria companhia.
Aprende a chorar sem motivo, também sorri, e ri. Os detalhes já não encantam...


Arrepende-se do presente comprado. Gastou metade do salário por quatro meses.
- Em vezes.

Mais cedo, encontro marcado, entrega a ela a caixinha azul. Surpreso com os sorrisos recebidos, sem palavras e sem chão, esta sentado no café desde a despedida.

Sente frio, termina o café. Necessidade de contar o ocorrido, o arrependimento diante da reação dela.
- Ficaste Feliz...

Ele esperava um término, com a vontade da solidão, agora sente falta das companhias boêmias, onde o desabafo é certo.



Ela caminha apressada, apreensiva e feliz. Excitada com o brilho da jóia. Observa os detalhes da noite agradável, cores, corpos a mostra.

Enfeitiçada pelos vários tons do anel, que estouravam conforme andava sob os postes de luzes quentes.
Chega em sua casa com um sorriso estampado. Dificuldade em abrir o portão baixo, corre até a porta e desaba nas dúvidas e certezas, reprime a felicidade infantil.

terça-feira, 30 de junho de 2009

15 minutos

Não o conheço, mas espero mesmo assim, com a certeza do encontro, ensaio as reações, os olhares e palavras. Sei que tens os mesmos vícios e percorre com o olhar lugares parecidos, silhuetas e detalhes, observador de contrastes, laçaste a demência de querer a presença constante.
Em geral, ouve-se falar bem da figura distinta. Nos submundos tão mal-falada... Detalhes de envolvimento.

Poderia permanecer estática aqui sentada, por horas, o cigarro como boa companhia, mais admirado por muitos, por mim e por ele, que a de mortais, normais e ocupados. Não os condeno, em dias sem cores me incluo nessa descrição.

Hoje, sentada vendo enquadramentos, o cigarro, o bloco cinza, a caneta e a velha máquina. Os dias de luzes estouradas, com vivências travadas me acompanham. Seguidos dos cigarros, do bloco, da caneta, da máquina, e hoje também de Ella Fitzgerald e de Louis Armstrong.

domingo, 28 de junho de 2009

Tanto mais

Corria ao redor de uma casa antiga, dessas altas com madeiras escuras e largas.
Tinha feições infantis, olhar inquieto que busca o novo. O corpo forte, de mulher madura. Contraste de expressões que encanta e assusta.

- Espero que um dia se apaixone por mim!
Foi a última frase que ouviu dela.

Uma pausa na corrida, olhar parado na tarde que brota do outro lado do muro. Degusta a lembrança do tom em que a frase foi dita, recorda a fotografia...

(Clima frio, uma tarde como esta que vê, nublada, branca, estourada.
Júlia parada em frente a porta escancarada, pés levemente virados para fora e o corpo para ela, fitavam-se.
Cabelos presos, brotando entre os grampos poucos cachos selecionados, balbucia a frase pausadamente, alinha-se dentro do imenso sobretudo jeans, e sai, sem olhar para trás e sem fechar a porta).

Continua a corrida, a cada volta que completa nota que a casa envelhece.
Rachaduras, falhas na pintura, falta de paredes e as lembranças.

Lágrimas escorrem sem mudar a fronte, ela segue.

Perturbações

O homem que tem intrínseco o extinto do viril. Bicho, macho, líder.

Gestos e ações brutas.

Ama envolto, conhece os movimentos, momentos, toques, cheiros, gemidos.
Mãos firmes, que percorrem a pele delicada com vontade dela, pressionando e desvendando formas e segredos.

Ela recorda durante grande parte de seus dias, tenta esquecer.
- Sem escolha!

Perdida! Levada pela curiosidade das sensações distintas, diante do que só havia escutado sobre. Derrete-se nas incertezas...
Parecidos em lidar com algumas situações.
Não sabe como reconhecer os sinais. E como o homem vê as relações.
Arrisca, não pode permanecer estática por tanto tempo...

sábado, 27 de junho de 2009

Passante

Durante a madrugada ele acontece. Desprovido de cascas e máscaras, relaxando a fala e os gestos, o andar torna-se macio.

Com o olhar direcionado mas sem foco definido, a expressão anunciando algo concreto, com o ar de quem acaba de tomar uma grande decisão; ele caminha, confiante, com um cigarro sendo degustado desesperadamente, tragadas intermináveis.

Sem paciência para bares e lares, na rua suporta as respirações.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Aquela Fonte


Foto por Larissa Adamowski. http://www.flickr.com/photos/larissa-a/

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Constatações

Nua, em pé, segura uma grande taça de vinho vazia, observa a garrafa que repousa na janela, por vários minutos permanece assim.
- E vamos ao fim...
Fala baixo e pausadamente, ainda com o olhar fixo no vidro verde.

Serve o restante do vinho, e coloca a garrafa no mesmo lugar, perde o olhar a analisar os pingos deixados pela chuva na janela, agora incrivelmente iluminados pela luz oriunda do único poste existente em sua rua. Faz todos os movimentos pausadamente, com a expressão fixa e forte.

Observa a rua deserta, esperando a chegada ou a partida de alguém. Bebe mais um pouco do vinho, e perde-se em pensamentos sobre a inutilidade da comédia romântica que assistiu mais cedo.
- Onde tudo funciona perfeitamente bem...

Observa a chegada e a insistência dele em abrir o portão de sua casa. Calcula o tempo em que ainda vai ficar nesta ação. Resolve abrir outra garrafa do vinho Argentino que adora, move-se vagarosamente para não despertar a atenção daquele que está ainda no meio do processo.
Aberta a garrafa, serve, e coloca-a ao lado da vazia, escolhe uma posição confortável para permanecer imóvel a espera, a espreita.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

A despedida de Maurício

- Tem três anos Mauricio!
Três lentos e inexplorados anos, que sentamos quase semanalmente nesta mesa velha, bebemos e discutimos as lástimas um do outro, como terapeutas que recebem como pagamento terapias. (Solta uma gargalhada estridente e recosta levemente na cadeira, arcando seu pescoço e perdendo alguns segundos a analisar o teto).

Mauricio somente escuta, balançando levemente a cabeça em um sinal positivo, bebe mais um gole do uísque e fixa novamente o olhar em um ponto qualquer da porta do boteco, tenta evitar Joana, que, já refeita da gargalhada o encara com um risinho bêbado estampado no rosto.

- Preciso contar Mauricio. Em terceira pessoa, narrando o dia de mais uma das tantas que sou.

Ele ainda sem desviar o olhar da porta, bebe mais um gole, e balança novamente a cabeça.

Ela começa com uma pausa (habitual, uma pausa inicial antes de escolher a expressão certa para narrar o acontecido com mais uma de suas personagens).

- Tendo firmado a defensiva casca, a garota tenta resistir ao olhar de uma manhã fria de terça-feira. Penetrante, daqueles em que você imagina todos os seus segredos sendo lidos.
Ante ao sol frio, o rosto bonito, com sombras encantadoras. Bela foto na memória de uma mulher que não aprecia ser fotografada.
Um adeus difícil...
Olhadelas para trás confirmam que os meninos são sempre os mesmos, e conseguem efetuar despedidas com muita facilidade, deixam para trás e seguem para lugares perdidos e inúteis.
Perplexa, porém firme nas convicções (firme com as pernas bambas), me refaço e sigo...
-Alguns dia já passados... E ainda estremeço com a lembrança do olhar na manhã fria.

Mauricio bebe outro gole e sem desviar os olhos, diz:
- A defensiva casca está com leves rachaduras Joana, que você, ardente em suas convicções, tenta encobrir.
(Termina o copo e acena para o garçom).

- Maurício! (Outra gargalhada). Sigo minhas trilhas só...
Joana joga seu pescoço novamente para trás e percorre com o olhar todo o teto, ainda com o risinho insistente, fazendo círculos com a cabeça...

Enquanto espera o uísque, Mauricio refaz mentalmente todos os passos que terá de seguir esta noite.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Final de Aurora

"Tirar o homem do corpo!".

Era com esse pensamento que Aurora ligava o chuveiro, com uma expressão de asco e desespero.

Limpar todas as excreções, escoriações, peles, pêlos, pares.
No dia, após mais uma daquelas noites, em que arranjava mais companhias além dos cigarros e da bebida.


Aurora era bela e jovem, e tinha como vícios as experimentações, de tudo, o considerado bom e o considerado ruim "por essa sociedadezinha de merda" ...
Defendia em mais um de seus discursos clichês que apenas repassava depois de escutar por aí, na TV ou em algum dos bares que frequentava.

"A vida não me prega peças, eu não me apaixono, não sou delicada, não sou problemática, não sou revoltada, não sou vulgar, não sou sexy, não sou...". Aurora se vê diante de uma situação bem conhecida, o momento em que anota em um papel, o nome do moço que acabara de conhecer, trepar, dormir, acordar, ver enquanto se veste.

"Parar de fumar, trocar de emprego, parar de beber, parar de sair, parar de ver TV, parar de ser clichê". A semana começa e Aurora se vê rodando...

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Minha

O mesmo nome carregavam.
Já a algum tempo desconfiavam que o corpo pudesse mudar, de fato.
Vagarosamente algumas desapareciam, como causa de um possível amadurecimento, ou de um trecho de vida inexpressivo.
Em hipótese alguma paravam a caminhada.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Encontros

- MARIA LUCIA!
Ele gritava correndo como um cão molhado atrás do ônibus que partira.

- MARIA LUCIA!
Ele insistia, tomado por um sentimento de poder sobre o veículo que se afastava cada vez mais.

Maria Lucia finalmente partira, após várias ameaças.
Ganhou como presente, aos 34 anos, um velho computador, na ausência do marido aprendera os segredos da internet e conectava-se em "bate-papos" intermináveis sob o pseudônimo de "Belle du Jour".
15 anos de casados, amor já não existia, somente um leve respeito, uma amizade antiga e algumas tentativas vãs de fazerem parte da vida um do outro.

Ela, dona de casa, infeliz com a idéia de não poder ter filhos, nascera seca. Com todos os passos traçados por um destino hereditário.
Ele, um contador, somente.

Tomada por uma curiosidade infantil, resolve marcar um encontro com o insistente "Cavalheiro Galante".

- Um local público!

Marcaram o encontro na linha do ônibus - 666 - Novo Mundo -, saída às 16h36, na Praça Rui Barbosa.
Ela sentada no último banco, com uma flor no cabelo. Ele entraria, pelo caminho, vestido de preto e sentaria ao seu lado.
A senha: Bonjour!

Sobre a mesa o frio bilhete:
"Irei em busca de um novo amanhã,
seja feliz,

Maria Lucia"

E segue Pedro, insistentemente, uivando seu nome.